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Devido ao Brasil passar por uma enorme crise sócio-econômica e apresentar uma taxa de desemprego crescente, muitos brasileiros têm pensado em deixar o país, tanto em busca de melhores condições de trabalho quanto para ter mais qualidade de vida. Como recebo muitas mensagens com pedidos de conselhos e dicas práticas de pessoas que pensam em vir morar na Europa, resolvi  escrever sobre alguns pontos sobre os quais penso que posso opinar…

Quero deixar bem claro que não sou analista econômica e, tampouco, profunda conhecedora de política internacional. Tudo o que posso compartilhar são minhas impressões, experiências e histórias de que tomei conhecimento nestes anos que tenho vivido aqui na Holanda.

Vale a vir morar na Europa?

Bem, a Europa é enorme, multicultural e eu não vivi em vários países. Visitar é uma coisa, resolver problemas cotidianos, é outra. Posso falar sobre a Holanda e sei que corro o risco de ser superficial. Mas o fato é que largar tudo e começar do zero não é tarefa fácil, seja onde for. Independente das condições do expatriamento. Logicamente que com pesquisa e planejamento fica mais fácil não cometer tantos erros mas, ainda assim, não há garantia de sucesso e felicidade.

Como é o mercado de trabalho na Europa?

Pergunta ampla e complexa: depende do país, da época e da situação econômica. Para citar dois casos atuais e extremos, temos a Grécia e a Alemanha. Ambas europeias, mas com situações sócio-econômicas totalmente diferentes. Vou além: dentro de um mesmo país, a oferta de trabalho vai depender (pelo menos) de dois fatores: qualificação profissional e domínio do idioma.

Se você tem uma profissão e experiência em dado setor, logicamente que as chances aumentam. Porém, sem o domínio do idioma, fica quase inviável conseguir exercer a função para a qual se candidata.

Conheço muitas pessoas com bons cargos e que não dominam o idioma Holandês. Contudo, elas trabalham em multi-nacionais onde o Inglês (ou outro idioma) é a língua oficial. Ainda assim, o domínio do Holandês faz falta, uma vez que em muitas situações corporativas, o indivíduo sente que ficaria mais socializado e integrado se conseguisse se relacionar com colegas nativos no idioma que lhes é mais confortável.

Meu diploma terá validade no exterior?

Na Holanda, algumas profissões necessitam de uma revalidação do diploma. Convém obter informações junto ao consulado do país em vista para saber especificamente se a revalidação se aplica ao seu caso.

Sou professora de Português e Inglês. Não precisei revalidar meus diplomas nem traduzir meus certificados para as funções que exerci nas três escolas em que trabalhei. Meu marido é engenheiro e veio para a Holanda com contrato de trabalho já assinado. Também não teve que se preocupar com revalidação, nem precisou traduzir os diplomas, mas pode ter sido por conta de ter sido uma tranferência ocorrida dentro de uma mesma empresa. Não posso afirmar, portanto, que engenheiros não precisam de revalidação. Pode ter sido, apenas, uma situação específica.

Tenho, porém, uma amiga dentista (com anos de experiência no Brasil) que precisou passar por um longo e complexo processo burocrático para revalidar o diploma. Entre outras exigências, ela precisou passar por aulas práticas e uma série de exames teóricos relativos à Odontologia (tudo em Holandês), assim como por exames de proficiência no idioma. Tudo isso sem contar os gastos, os deslocamentos e os anos de dedicação exclusiva ao processo de aquisição da licença para voltar a exercer sua profissão. Foi admirável acompanhar o processo, que exigiu muita determinação, disciplina e esforço.

Em resumo, cada caso é único e precisa ser verificado cuidadosamente, a fim de evitar surpresas e desgastes desnecessários.

É fácil arrumar trabalho na Holanda?

Mercado de trabalho é, via de regra, competitivo em qualquer lugar. Se você tem uma boa formação profissional terá mais chances, mas a concorrência não será menos acirrada, já que para bons cargos, sempre haverá mais candidatos do que vagas.

Se você pensa em vir com a mentalidade “aceito fazer qualquer coisa” é bom ter em mente que muitas pessoas, de diferentes países, chegam à Holanda com a mesma ideia. Só para citar um exemplo, milhares de trabalhadores do Leste Europeu vêm para a Holanda em busca de vagas que não exigem tanta qualificação profissional. E eles contam com a vantagem de possuir um passaporte europeu.

É fácil conseguir um visto de permanência e de trabalho na Holanda?

Sim e não. Se você já vem com um contrato de trabalho assinado (como foi o caso do meu marido), o visto de permanência sai rápido e sem complicações. O inicial (de 6 meses) é expedido ainda no Brasil – pelo consulado holandês – e, uma vez chegado à Holanda, o interessado entra com um pedido de extensão do prazo, que fica vinculado à duração do contrato de trabalho, podendo ser renovado, se for o caso. Se você não tem contrato de trabalho nem passaporte europeu, as regras são bem mais rígidas, exigindo inclusive um exame para aferir os domínios básicos do idioma, realizado ainda no Brasil.

O que muitos brasileiros com passaporte europeu fazem é simplesmente vir para cá e procurar um lugar para morar e, uma vez instalados, ir em busca de uma colocação no mercado de trabalho. Tenho visto muitas situações como essa em grupos do Facebook. Pessoas com ou sem formação superior; com ou sem experiência. Todas com muita vontade de arriscar. Definitivamente, uma atitude de coragem, mas sem garantia alguma de sucesso. É contar um pouco com a sorte e lidar com as dificuldades iniciais e os percalços ao longo do caminho.

Outra situação frequente é o brasileiro vir com visto de turista (que vale só três meses) e ir ficando por aqui na clandestinidade. Bem, todo mundo conhece – pelo menos por alto – os riscos dessa escolha, que pode acabar em deportação e proibição de retornar ao país.

Recentemente, ouvi dizer que cerca de 70 mil brasileiros vivem na Holanda e que estima-se que 40 mil estejam em situação ilegal. Honestamente, não conheço histórias boas ou ruins sobre essa condição. Tampouco estou julgando. É uma escolha pessoal, baseada em decisões que desconheço. Cada um tem sua história e seus motivos, mas imagino que se já é difícil, às vezes, viver com “tudo nos conformes”, certamente, viver na corda bamba não deve ser nada fácil…

A vida real não é o Facebook

Costumo brincar que o Facebook é (quase sempre) a Revista Caras dos “mortais”: todo mundo é feliz, posa na frente de lindos lugares, sempre radiante, bem-humorado, brindando e curtindo a vida adoidado.

 

Mas, largar tudo pra trás, sair da zona de conforto, abrir mão da convivência dos amigos, da família, reduzir sua vida a duas malas e muitas incertezas não é tarefa corriqueira. Exige desprendimento, coragem… eu diria sangue-frio, até!

No inicio, todo dia vai ter alguma emoção: seja ela muito boa, gerada pelas novidades… seja ela muito ruim, gerada pelas dificuldades. A princípio, tudo é um desafio: achar um lugar para morar, aprender como funciona o transporte público, como se vestir, como falar o básico, onde achar os produtos que você costuma comer etc. Fora isso, há a saudade de tudo e de todos: da família, dos amigos, da rotina conhecida, das referências de todo tipo, do clima…

Nesta altura, você pode estar pensando: “ah, ela fala isso, mas tá lá”… verdade: estou feliz e pretendo continuar por aqui, mas isso não quer dizer, porém, que seja tudo sempre muito divertido, fácil ou melhor. Há dias em que tudo o que eu queria era estar de volta ao meu país, cercada de tudo e todos que amo, num mundo perfeito… mas esse mundo não  existe: nem lá, nem cá.

A pergunta de um milhão de euros, que só você pode responder sobre si mesmo(a), é: vale a pena tentar? Se você achar que sim, muna-se de passaporte, coragem, peito e mente abertos… e pé no mundo… Sempre haverá a chance de encontrar um brasileiro que “já percorreu o caminho das pedras” pronto pra lhe ajudar! 

Categorias: Vida na Holanda

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