Sem Comentários

Hesitei muito antes de escrever a respeito de uma frase que li no Facebook e que causou tanta repercussão, compartilhamentos e comentários acalorados (contra ou a favor). Motivo: meu foco são as viagens, os temas leves, o dia a dia em outro país etc. Porém, a tal frase me atingiu tão profundamente, tão “no peito “ e “na carne”, que não consegui mais ficar quieta.

No momento em que os resultados das últimas eleições foram divulgados nas mídias, prometi a mim mesma que não iria mais postar minhas opiniões ou curtir qualquer post ou comentário sobre a situação política brasileira. E vinha cumprindo essa resolução até agora. Confesso que tenho,  até mesmo, evitado ler sobre a atual conjuntura brasileira.

Acontece que, ao ler a frase “Odeia o Brasil? Vá prá* Miami lavar privada!”, fiquei chocada… E não foi só como professora de Português, já que a contração da preposição para foi “assassinada com um acento agudo. Fiquei, sim, muito indignada pela mensagem! Indaguei-me, no mesmo instante: em que momento “LAVAR PRIVADA” virou sinõnimo de castigo, punição ou penitência para alguém?

Que desprezo é esse, por um ato tão banal, corriqueiro e necessário na vida de qualquer cidadão, independente da classe social ou do grau de escolaridade? E essa indagação gerou muitas outras, que continuaram martelando a minha cabeça, fazendo meu coração bater mais rápido e meu sangue correr borbulhante pelas veias… Resolvi canalizar: este meu texto é uma forma de botar pra fora o que penso de tudo isso…

Não posso afirmar qual foi a real e completa  intenção do “inspirado” autor da frase, mas ouso dizer que a mensagem foi “não está feliz com o seu país – ou com os rumos que dão a ele – vá fazer faxina, vá ser imigrante, vá se sujeitar a qualquer tipo de (sub)tarefa em outro país…

Pois bem: conheço dezenas de pessoas (que conhecem outras tantas dezenas) que “lavam privadas”, sim, e que vivem felizes com essa situação. Não estou me referindo só às mulheres (ou homens) que possuíam uma carreira estável e que hoje são “do lar”.

Também me refiro àquelas que “lavam privada” e que também realizam todas as outras atividades domésticas como seu “ganha-pão”. Nenhuma das duas categorias merece ou precisa da compaixão (ou desdém) de ninguém, afinal, limpeza nunca foi motivo de demérito para ninguém.

Dentre essa quantidade enorme de brasileiros que conheci vivendo fora do Brasil, vou me ater a três exemplos de “limpadores de privada” dignos de ter sua história contada:

A primeira é uma paulista, dentista aqui na Holanda. Veio com seu diploma e anos de experiência na bagagem. Naturalmente, não tinha permissão para trabalhar aqui, antes de preencher todos os requisitos legais. Precisou passar por todos os trâmites e processos burocráticos. Estudou, em média, 12 horas por dia a fim de dar conta de aprender o idioma e passar nos exames de proficiência da língua.

Além disso, precisou revalidar seu diploma, sendo submetida a exames práticos e teóricos sobre assuntos que já faziam parte da sua rotina de trabalho há anos. Hoje, ela não só exerce sua vocação, como é uma empresária de sucesso: dona da própria clínica e com uma clientela cativa. E claro, o mais importante de tudo: ainda encontra tempo para ser uma mãe zelosa, ótima esposa e, lógico, “lavar privada”… aliás, ela confessou que adora ver uma privada limpinha, brilhando, tinindo…  mesmo carinho e dedicação com que cuida dos dentes de seus pacientes! Achei lindo e (tomara que ela me perdoe) resolvi compartilhar essa história de sucesso!

Outra amiga, teria tudo para “se achar a cereja do bolo”: marido presidente de uma empresa famosa, filhos universitários estudando na Inglaterra, a filha mais nova destacando-se na escola pelas notas altíssimas, ela própria, com formação superior. Com todo esse “cartão de visitas”, é uma talentosa artesã, devoradora de livros… e, claro, como excelente dona de casa, deve deixar as privadas de sua bela casa impecáveis, com certeza!

Quer mais um bom exemplo? Uma paulista, profissional liberal, com a qual convivi tempos atrás. Culta, inteligente, também devoradora de livros, com passaporte europeu, resolveu vir para a Holanda “lavar privada” profissionalmente. Resumo da história: limpava as casas de muitas pessoas, sempre feliz e bem humorada, conhecendo  nas horas vaga tudo o que havia lido em seus incontáveis guias de viagem. Ganhava muito mais do que quando estava em São Paulo, tanto em cifras quanto em experiência de vida. Fazia tudo o que queria e ainda conseguia juntar dinheiro para ir ao Brasil pelo menos uma vez por ano.

Meu exemplo: trabalhei 20 anos como professora. Com a minha formação universitária, anos de experiência e toda dedicação, nunca tinha conseguido realizar os sonhos  e projetos que venho colocando em prática nestes últimos anos… Visitei mais de 20 países, aprendi mais um idioma, conheci pessoas do mundo todo… Tudo isso, enquanto “lavava privadas”…

O que eu e todos os brasileiros que moram fora e “lavam privada” temos em comum? Eu poderia citar mil motivos, mas vou me ater a apenas um: PAZ. Mas não estou me referindo àquela paz dos desejos de felicitações de Ano Novo ou aniversário… Eu estou falando de PAZ em tempo integral!

Eu estou falando da PAZ que se ilustra com o fato de eu estar escrevendo este texto no meu IPad, enquanto estou no trem a caminho de Haia (2h40min de sossego e free Wi-Fi); curiosamente, há uma jovem à minha frente, usando tranquila e despreocupadamente seu caro Macbook.

PAZ que sinto ao caminhar com a minha cadelinha ao chegar de um evento, tarde da noite, sem preocupação de tirar qualquer joia ou apetrecho chamativo que eu, por ventura, estiver usando…

PAZ que me acompanha e que me permite dormir, profundamente… Mesmo sabendo que meus filhos estão nas baladas… ou que não tenho uma grade sequer nas imensas janelas de vidro da minha casa, no centro de uma grande cidade…

PAZ que me acalenta ao pagar os impostos (altíssimos) taxados pelo governo holandês… acompanhadada  da certeza de que eles voltarão em benefícios para mim e para todos os outros…

PAZ que me me conforta ao saber que, independentemente de suas escolhas profissionais, meus filhos levarão uma vida digna e sem privações aqui neste país…

A lista do que a PAZ me traz, não tem fim… Aí eu pergunto, principalmente a quem não “lava privada” (porque tem quem o faça)… Você também sente essa PAZ? Se você disser, genuína  e verdadeiramente que sim, eu volto correndo para o país que nunca deixei de amar, apesar de tudo o que tenho visto, lido ou sabido…

Mas confesso, do fundo do meu coração, que gostaria de encontrar algo diferente, mudado: o pensamento tosco e provinciano de que ”lavar privada” é humilhante, pois uma ideia que se consolidou, que se entranhou em mim, nesse período que tenho vivido aqui, foi a de que “lavar privada” e só um ato mecânico necessário na vida de todos, em certos momentos da semana. Duvido que aqui alguém perca um minuto de reflexão sobre esse tema. Cada qual ocupado demais com assuntos realmente relevantes do cotidiano.

Categorias: Vida na Holanda

Tags:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *