Sem Comentários

Um dia desses um brasileiro, mudando-se em breve para Haia, colocou em um  grupo do Facebook algumas dúvidas que achei bem interessantes. Ele contava que, apesar de ele já ter morado em dois países completamente diferentes (Alemanha e Austrália), estava preocupado com o tipo de vizinhos que poderia encontrar na Holanda. E não é que ele, sem querer, acabou me dando um excelente material para um post?

Bem, após ter passado por três cidades e cinco casas diferentes, acho que posso dizer que já tenho uma certa ideia do que é ter vizinhos holandeses. Afinal, são quase oito anos de vida “tussenwoning” (um termo que explicarei já, já). Morei em vizinhança pacata, em bairro comercial e, hoje, moro perto do centro de uma grande cidade. Então, penso que tenho uma boa dose de experiência do que seja morar entre holandeses.

Existem algumas convenções e formalidades a que não estamos acostumados no Brasil, mas que por aqui são fundamentais para você ter um relacionamento cordial com os seus vizinhos. Tentarei listar algumas delas.

Veja, essas são as minhas impressões e as minhas experiências. Pode ser que você tenha uma vivência completamente oposta a minha. Todas são válidas e verdadeiras, porque em uma mesma vizinhança, pessoas de uma mesma cultura podem se comportar de maneiras diferentes. Vou apenas relatar as minhas impressões.

O holandês gosta de saber quem chegou

Sim, é um hábito muito comum por aqui o recém-chegado se apresentar. Claro que se você mora em uma rua muito grande ou em um prédio, você não procurará um por um dos seus vizinhos. Ainda assim, é esperado que você se apresente pelo menos para os que moram ao seu lado e à sua frente.

Não se sinta invadido(a), também, se passados alguns dias você receber uma visita inesperada, muitas vezes com um pequeno buquê de boas-vindas. É uma maneira gentil de o seu vizinho lhe dizer “Oi, tudo bem? Sem querer ser intrometido (mas já sendo!), entendo que talvez não seja parte de sua cultura, mas gostaria muito de saber quem é a pessoa que vai morar ao meu lado”.

Minha última mudança antes de ser desempacotada e minha cachorra xereta querendo fiscalizar tudo…

Não se preocupe, ele não vai esperar que você o convide para entrar, mas ficará aliviado se você responder a um pequeno questionário básico: quem você é, há quanto tempo está na Holanda, trabalha para quem e quanto tempo pretende ficar… satisfeita a curiosidade, ele deixará você em paz, com votos de felicidades, boas-vindas e a intenção de lhe ser útil, se você precisar.

Não estranhe, também, se você receber em sua caixa de correio um cartãozinho convidando para uma recepção (normalmente um café ou drinques) na casa de seu vizinho que acabou de se mudar. Ele, com certeza, terá enviado para (todos) os outros moradores da rua. Uma maneira simpática de se apresentar simultaneamente a todos e já aproveitar para diminuir (de uma só vez) o grau de curiosidade da vizinhança.

Se você receber um convite assim, aceite se possível e leve um pequeno presente de boas-vindas: umas flores ou uma garrafa de vinho vão agradar, com certeza. E não precisa ser nada caro ou extravagante! Pelo contrário, pode até soar um pouco esnobe se for “vistoso” demais. Se não puder aceitar o convite, envie pelo menos um cartão para que ele saiba quem você é.

O holandês não tem “papas na língua”…
Portanto, não leve os comentários para o lado pessoal…

Eu tenho uma vizinha que é um amor de pessoa e que virou uma grande amiga em pouco tempo. Sempre solícita e presente, apesar de não impor excessivamente a presença. Assim que me mudei (como ainda não havia me apresentado!), ela veio cumprir o “ritual de boa convivência”. Trouxe-me um singelo arranjo de flores, apresentou-se e disse-me o seguinte(com toda a delicadeza) : “olha, se um dia eu lhe incomodar com qualquer coisa, pode vir me dizer. Se eu nunca vier reclamar de nada, é porque está tudo bem”.

Não fiquei nem surpresa nem ofendida, pois já morava na Holanda há cinco anos. Achei gentil da parte dela, pois muitos estrangeiros recém-chegados, talvez não saibam dessa regra “não dita”, mas bem colocada em prática. Bom, três anos depois, ela só tocou minha campainha para me convidar para alguma coisa ou se despedir quando viaja… Ufa!

Respeite o espaço do seu vizinho

Esta é uma regra fundamental da boa convivência. Parece óbvia, mas os parâmetros diferem entre os povos e as culturas. Quando me referi a espaço, estava abrangendo não só a fachada, os limites do muro etc. É preciso, também, respeitar os espaços “imaginários” e isso inclui várias coisas: a privacidade, a harmonia e o silêncio.

O holandês não gosta que você apareça na casa dele sem avisar. Então, a menos que seja uma emergência, não toque a campainha. Principalmente, na hora do jantar (entre 17:00 e 19:00 nem pensar em tentar comunicação!).

Se precisar falar com seu vizinho, ligue e pergunte se ele está disponível. Se quiser fazer um convite, proceda da mesma forma: ligação ou cartão com boa antecedência (este segundo item difundido e adorado por eles!).

Evite ser barulhento, mesmo de dia. Som alto, conversas muito ruidosas os incomodam e eles não hesitam em tocar a sua campainha e pedir moderação, se for o caso. Já ouvi muitas histórias de brasileiros que tiveram problemas em prédios, por exemplo, pois o vizinho de baixo reclamava da pisada muito forte ou do barulho provocado por conversas animadas, por exemplo. Parar em frente à casa de alguém e buzinar, então, é impensável. A vizinhança IN-TEI-RA vai aparecer na janela para saber qual é a emergência!

E por falar em som alto, claro que há uma certa tolerância em certas ocasiões. Se você vai dar uma festa e avisa para seus vizinhos que haverá um certo barulho até determinada hora, eles tendem a aceitar o fato e não lhe importunar. O problema é quando eles não sabem e aí ficam ansiosos e desconfortáveis com o fato de não saber “até que horas vai a bagunça”…

Ah, eu tinha falado que explicaria a questão do “tussenwoning”, que significa “moradia entre duas casas”. O padrão de construção holandesa das grandes cidades é uma casa grudada na outra. Se você morar assim, como sempre foi meu caso, fique atento à questão da harmonia das plantas que você coloca na frente de casa ou mesmo no seu muro (que faz fronteira com a outra casa).

Minha casa “tussenwoning” atual…

Eles se preocupam muito, também,  com a forma como as plantas crescem (e invadem o outro quintal) e procuram organizar este quesito também. Então, antes de mudar alguma coisa ou inserir uma divisória, por exemplo, converse com o seu vizinho para evitar problemas futuros.

Conquiste o seu espaço na vizinhança

O holandês não tem a personalidade do brasileiro “padrão”, de ser receptivo e caloroso à primeira vista. Ele leva um tempo até se familiarizar, confiar e se sentir à vontade com os outros. Especialmente, com estrangeiros.

A Holanda é conhecida pelo seu caráter tolerante, mas nos últimos anos vem convivendo com alguns problemas sociais trazidos, principalmente, por imigrantes e seus descendentes, então é natural que. às vezes, eles fiquem com um pé atrás com os imigrantes…

É de se compreender, também, que as pessoas tenham ficado mais introspectivas e cautelosas com quem não conhecem (ou que não tenham o mesmo respaldo cultural). Porém, à medida em elas que vão lhe conhecendo e percebendo que você não traz problemas à comunidade, aceitam a sua presença e são excelentes vizinhos, do tipo que não lhe incomodam, não interferem na sua vida e que estão dispostos a ajudar e a viver em perfeita harmonia.

O segredo da boa convivência aqui é a capacidade de perceber que o direito de um termina quando começa o direito do outro.  E isto implica em respeitar os limites do muro e do outro e na capacidade de abrir um sorriso ao desejar um bom dia…

O “quintal” da minha casa de Groningen…

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