Tenho certeza absoluta de que esta pergunta já martelou  a cabeça de toda mulher que mora longe da mãe e que já passou (ou passará em breve) pela experiência da maternidade. Se tornar-se mãe já dá um medo enorme, imagine sem a presença carinhosa e experiente da própria mãe em uma ocasião em que nos sentimos tão vulneráveis e assustadas? Ou ansiosas e inseguras? Ou tudo ao mesmo tempo e misturado?

Quando fui mãe pela primeira vez, tive mãe e sogra morando em cidades próximas e foi tudo muito tranquilo. Estava eu com 25 anos, não tinha a presença das duas o tempo todo, mas sabia que podia contar com elas caso “o bicho pegasse”. E isso, para mim, era um conforto, já que eu não ficava nem sufocada pela presença 24/7, nem desprovida nos momentos de necessidade (ou de lazer, muitas vezes). Era o arranjo perfeito!

Pena que durou pouco: minha mãe mudou-se para o Japão quando o meu mais novo estava com dois anos (e lá ficou por sete anos). Nós nos mudamos para outra cidade em poucos meses. Depois para outro estado e, finalmente, para outro país. Neste vai-de-um-lugar-para-o-outro, já se vão 14 anos. De lá pra cá, fiquei sem minha mãe e meus filhos veem a avó paterna uma vez por ano.

Mas não dividi essa história com você à toa, só para mostrar meu lado desamparado ou triste, pelo contrário. Foi justamente para levantar a questão de que, apesar da distância, da saudade, das perdas, é possível sim, ser mãe (e uma boa mãe) longe de tudo e de todos, principalmente, da querida mamãe.

Maternidade fora da zona de conforto

É possível sim, parir em um hospital com padrões diferentes daqueles a que estamos acostumadas, com referenciais inusitados de atendimento médico (como parteiras ou enfermeiras que vêm à nossa casa para nos ajudar nos primeiros dias etc.). É até compreensível que a nossa mãe não esteja por perto no momento em que tudo isso acontecer e que só possa conhecer o(a) netinho(a) alguns meses ou até anos depois.  Sorte a nossa que hoje em dia existem Skype, Facebook, WhatsApp e por aí vai…

A pergunta que sempre vem à minha mente é: como lidar com a questão da maternidade e todas as escolhas que isso implica em um ambiente internacional, diversificado e de multiplicidade cultural?

E eu nem entro no terreno das culturas (e línguas) diferentes dentro da própria casa. Sou casada com brasileiro e não tenho experiência pessoal nesse tópico. Confesso que sempre fico intrigada e curiosa com essa realidade, que não é a minha…

Outra angústia que me inquieta com frequência é de que, se meus filhos sobreviveram sem a presença das avós (e sem grandes traumas por conta disso!) se eles no futuro também não acharão “normal” que eu não esteja por perto, se eu voltar para o Brasil e eles resolverem ficar por aqui.

Como vou falar com os meus netos?

Uma outra pergunta, que não tira meu sono mas que me deixa um pouco apreensiva: que língua eu falarei com os meus netos? Outra dia pensei essa pergunta em voz alta em um encontro de brasileiras e uma amiga respondeu prontamente: “a sua”.

Verdade, posso sim, perpetuar minha língua e minha cultura com um neto “híbrido” (pai: brasileiro/ mãe: múltiplas possibilidades!), mas será que ele vai me entender? Será que ele se sentirá confortável com isso? Será que minha nora vai aprovar? São muitas as dúvidas de uma mãe que ainda nem sonha em ser avó e que já lida com esses questionamentos!

Para mim, as questões são muito mais amplas. Todos eles falarão (confortavelmente) a mesma língua entre si? Quantas línguas serão faladas em um jantar de Natal em família? Haverá cochichos paralelos em múltiplos idiomas? Perguntas que passam pela cabeça de toda mãe que cria os pimpolhos fora da zona de conforto…

Mas aí você pode refutar: “ah, mas isso são detalhes. São meras bobagens especulativas, diante de tantas vantagens em criar filhos em ambientes multiculturais”. Concordo: os prós são muitos e evidentes, mas ainda assim, os contra sempre estarão presentes.

Como driblar os desafios das datas comemorativas?

Para aliviar as tensões que essa situação mãe-à-distância podem causar, é muito importante encontrar maneiras de driblar os desafios ou desconfortos. Aqui em casa, há muito tempo já nos libertamos da “convenção das datas”. Então, Dia dos Pais, das Mães, do aniversário etc. é qualquer data mais próxima em que possamos todos estar juntos. Não cobramos a presença um  do outro e não nos ressentimos com a ausência.

Outra maneira saudável e divertida: unir-se com pessoas passando pela mesma situação e viver o momento com uma atitude positiva. Certa ocasião, recebi um convite de uma amiga para comemorar o Dia das Mães em sua casa. Os filhos dela estavam estudando nos Estados Unidos e meu filho mais velho não tinha vindo para casa. Assim como nós duas, havia outras mães “desfalcadas”. Fizemos um churrasco bem democrático. Quem estava com maridos e filhos, beleza. Foi acompanhada. Quem não estava, foi e curtiu mesmo assim, sabendo que não tê-los por perto faz parte da vida.

E assim, segue a vida expatriada: nada de “mimimi”! Nada de sentir culpa, mágoa, arrependimento. A vida nos brindou com a maternidade. Seja por termos sido concebidas, seja por termos concebido um ser (ou mais).

Não existe presente maior do que o dom da vida. E ela está aqui e agora para ser celebrada com um sorriso no rosto, um peito aberto e um pensamento leve. Feliz Dia das Mães é todo dia em que acordamos e nos lembramos, de imediato, de que somos mães.

O melhor presente que a vida pode dar a alguém… filhos!

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